Imagine que você espera o resultado de um exame e comenta com dois amigos. O primeiro diz: “relaxa, vai dar tudo certo”. O segundo: “melhor se preparar para o pior”. Os dois querem a mesma coisa, que você sofra menos. Só discordam do caminho. E você provavelmente já travou essa discussão sozinho, dentro da cabeça.
O otimismo só aparece onde a informação acaba e, ainda assim, é preciso decidir. Vale mandar mais um currículo? Ter aquela conversa difícil? Começar um tratamento que talvez não funcione? Quando faltam os números, não há conta a fazer, e a decisão sai de uma espécie de régua interna que define para que lado a gente chuta.
Só que usamos a mesma palavra para duas coisas. Uma é estimar: achar que a chance é boa. A outra é sustentar: seguir tentando, mesmo com chances baixas, olhando a realidade de frente. Prefiro chamar essa segunda de disposição. Pense em duas pessoas querendo a mesma vaga. Uma lê o anúncio, acha que tem chance, manda o currículo, pede indicação. A outra deita na cama e imagina a cena: já contratada, contando para a família, o primeiro salário caindo. Sente-se ótima, e manda menos currículos. Uma fez uma previsão; a outra fez uma cena. A previsão deixa o problema em aberto; a cena já entrega o final. Quando sentimos o final como se já tivesse acontecido, sobra menos energia para buscá-lo.
Há ainda um detalhe que muda tudo: raramente temos uma chance só. Ser notado, fazer uma boa apresentação, aprender algo novo, a cada tentativa, a chance acumulada sobe. A chance de cada tentativa você não controla; o número de tentativas, sim. E tentar produz algo que nenhuma estimativa produz: informação nova. Quem quer mudar de área e acha a chance baixa fez essa conta quando sabia menos sobre aquele mundo. Se desistir ali, a conta nunca será corrigida. Se fizer um curso, mandar uma mensagem, aparecer num evento, a chance muda, não porque pensou positivo, mas porque passou a saber mais. Como escreveu o filósofo Karl Popper, o otimismo é um dever: o futuro está aberto, e todos nós ajudamos a determiná-lo pelo que fazemos.
Para que esse otimismo não vire ilusão, ajudam três atitudes. Não levar o azar para o lado pessoal: se chover no dia do casamento, a culpa não é do noivo, em vez de “sou incompetente”, pensar “essa tentativa falhou por esse motivo específico”. Agir com metas claras: “vou tentar este caminho por tanto tempo, com tanto esforço”. E se permitir ter esperança, soltando um pouco o controle, confiando que a vida costuma abrir possibilidades novas.
E o pessimismo? Existe um mito de que quem está sempre para baixo enxerga a vida como ela é. É verdade que quem aposta que tudo vai dar errado quase nunca se frustra, mas isso não é sabedoria, é ter desistido do jogo antes de jogar. É armadura disfarçada de lucidez: protege o queixo e amarra os pés. Quem vive no “crie porcos, mas não crie expectativas” se protege da decepção, mas nunca se surpreende nem vai atrás do que só aparece para quem tenta.
Isso não significa que imaginar o pior seja sempre ruim. Os estoicos pensavam de propósito no que mais temiam perder, e descobriam, quase sempre, que dariam conta. O monstro no escuro vira só uma possibilidade entre outras. A questão é se pensar no pior te prepara ou te deixa girando em círculos. Vale também desconfiar das estimativas: o medo empurra tudo para baixo, a raiva empurra para cima, e muitas vezes o que parece leitura da situação é só o humor do momento.
Voltando aos dois amigos: nenhum deles queria te ver mal. Mas nenhum dos conselhos diz o que fazer enquanto você espera, nem depois do resultado. Isso depende do quanto você quer aquilo, do quanto precisa, de quantas tentativas ainda restam e do que tem a perder. Muda de pessoa para pessoa, e de um ano para o outro. Seus amigos não tinham como saber. Eu também não tenho. Essa parte sempre foi sua.
