Festa de São Cosme e Damião resiste ao tempo no Rio – 26/09/2026 – Cotidiano

Três mulheres sentadas em banco colorido organizam alimentos e itens em mesa coberta por toalha branca. Ao fundo, três figuras decorativas dos Três Reis Magos em ambiente interno com decoração natalina.

É comum que simpatizantes de são Cosme e são Damião cheguem à paróquia dos santos gêmeos, no Andaraí, Rio de Janeiro, pedindo para um padre abençoar a imagem de três irmãos. O terceiro é Doum.

Este é o momento em que o diácono Eugênio Júnior explica à pessoa que a devoção na Igreja Católica é apenas aos dois irmãos. O Vaticano atribui aos gêmeos a existência e morte como mártires, e a eles chancela a santidade. Doum é uma representação popular na umbanda.

O diácono admite, porém, que é tênue a linha entre a celebração católica e os ritos da umbanda nas homenagens a São Cosme e Damião, comemorados no dia 27 de setembro, como este domingo.

“Como Cristo, nós temos que acolher a todos. Muitos fazem a confusão entre as celebrações de Cosme e Damião e a ibejada. A igreja celebra Cosme e Damião no dia 26, mas muitos devotos católicos continuam vindo dia 27, e nossa paróquia comemora no dia 27 também. O que importa é a fé”, diz Eugênio.

A tradição cristã conta que os irmãos eram médicos e tratavam de doentes por caridade. Viviam ao redor do mar Egeu, entre a Europa e a Ásia, e foram martirizados por não negar a Cristo, durante perseguição romana contra os cristãos no século 3. Incendiados, condenados à lapidação e flechados, sobreviveram às três tentativas. Foram, por fim, decapitados.

O candomblé cultua os ibejis, meninos gêmeos. A umbanda celebra a incorporação dos erês, espíritos de crianças que descem ao plano terreno para aconselhar, em troca de doces e guaraná.

Neste emaranhado de sincretismo brasileiro nasceu a tradição, na primeira metade do século 20, de distribuir sacos de doce às crianças no dia de Cosme e Damião.

Um saquinho tradicional deve ser preenchido com doces brancos, como cocada, maria-mole e suspiro, além de outros à base de amendoim, como paçoca e pé-de-moleque. A passagem dos anos incorporou balas e gomas de mascar, mais recentemente chegaram bombons e barras de chocolate.

Os saquinhos são distribuídos como pagamento de promessas ou pedidos de graça. Amanda Teixeira, 43, vive litígio com o ex-marido e vai distribuir pela primeira vez. “Vou dar 50 saquinhos. Se Cosme e Damião e Deus permitirem que as coisas melhorem, ano que vem darei 100, e depois 150, e vamos melhorando.”

A administradora de empresa Tiane Appolinário, 47, batizada na igreja de São Cosme e Damião, agora é dirigente do templo de umbanda Ogum Beira-Mar, no Cachambi, zona norte do Rio.

Durante a semana ela e outros dirigentes prepararam brinquedos e saquinhos que serão distribuídos às crianças, além de um enxoval para gestantes. Neste domingo também haverá gira com os erês. O templo tem cerca de 350 médiuns e outras centenas de visitantes ao longo do dia.

Tiane foi uma criança que faltava aula para pegar doce.

“Na minha casa dia de Cosme e Damião era feriado. Não importava se tivesse prova na escola. Antigamente, as crianças circulavam e você tinha a certeza de que as crianças iam receber. Hoje em dia temos de perguntar à mãe se a criança recebe doce. Isso, para nós, devotos, é estranho.”

Enquanto a umbanda prepara a gira, a paróquia de Cosme e Damião faz a sua trezena. Não sem celebração: o padre Rodrigo Brum preparou festas com bateria de escola de samba e festival de pastel.

“Jesus disse que os cristãos têm de ser o sal da terra e a luz do mundo. Isso é potencializado quando fé e cultura estão unidas. Esses dias uma criança ficou impactada e disse: ‘mãe, pode ouvir samba na igreja?’. Com a cultura a gente consegue alcançar a muitos corações”, diz Brum.

Os primeiros registros da celebração aparecem nos jornais cariocas a partir da década de 1940 —antes disso já existia no candomblé baiano o caruru dos meninos, oferecido aos ibejis.

Os seguidores da tradição da distribuição de doce afirmam que o entusiasmo das crianças com o dia de Cosme e Damião já não é mais o mesmo. Atribuem a isso o crescimento da cultura evangélica, que, em geral, não aceita os doces. Citam também a facilidade atual de se comprar um chocolate e a dinâmica das grandes cidades, com cada vez menos bairros onde se dá convivência entre vizinhos.

A resistência, porém, vem por meio da adaptação. Se antigamente as pessoas recebiam um batalhão de crianças na porta de casa, agora a busca pela meninada é ativa.

“A violência diminuiu a prática da distribuição de doce, mas também acho que a resistência pela tradição tem crescido. Preparo festa para centenas de crianças no templo há cerca de oito anos, e acredito que a difusão da tradição tem melhorado nos últimos três ou dois anos. Mais pessoas têm vindo buscar”, afirma Bianca Chaves, também dirigente do templo Ogum Beira-Mar.

Amanda, moradora da Barra da Tijuca, bairro da zona oeste repleto de condomínios, planeja entregar os saquinhos de carro. Este domingo será a primeira vez de Amanda comandando a distribuição.

“Na Barra é difícil as famílias aceitarem os doces. Quem aceita fica nos canteiros da avenida principal esperando os doces. Assim fica mais fácil porque você já sabe que aquelas crianças estão ali para isso.”

As recomendações do que comprar vieram de uma funcionária de Amanda, a babá Kelly Reis, 32.

“Tento equilibrar doces tradicionais, como pé-de-moleque e paçoca, com doces modernos. Ano passado comprei balas de gelatina; este ano não deu porque está caro. É importante colocar coisas que as crianças gostem, porque elas estão mais seletivas. Ao mesmo tempo, temos que manter o foco da tradição.”



Fonte ==> Folha SP

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