Hoje acordei com a estranha sensação de que o mundo estava gripado. Não era metáfora – ou talvez fosse daquelas metáforas que deixam de ser figura de linguagem e passam a ser um boletim médico. Olhei pela janela e o sol parecia ligeiramente mais cansado, como quem bate ponto por obrigação.
Lembrei então que era o Dia da Terra. Data curiosa: a gente reserva um dia no calendário para lembrar que mora aqui. É como comemorar o aniversário da própria casa enquanto a pia pinga, o telhado tem goteira e a conta de luz ameaça virar literatura dramática.
A Terra, se pudesse falar, talvez não fizesse discursos. Tossiria. Uma tosse seca, dessas que interrompem conversa e constrangem visita. Algo entre o pigarro de quem pede atenção e o aviso de quem já pediu muitas vezes.
– Não é nada – diria meu amigo Tinho, com a segurança dos desavisados. É só uma mudança de tempo.
Mas o tempo, esse sujeito sensível, anda mudando mais do que devia. Ora chora em excesso (como agora em Mar Grande), inundando ruas que nunca aprenderam a nadar, ora se recolhe, deixando o chão rachar como lábio no sertão de Cabrobó. E a gente, no meio disso, abre o guarda-chuva ou procura sombra, como se o problema fosse de logística e não de convivência.
Falam muito do tal aquecimento global. Nome técnico, quase elegante, que esconde um fato simples: estamos esquentando demais a panela onde vivemos. E o curioso é que, mesmo sentindo o vapor, ainda discutimos se o fogo está ou não aceso.
Outro dia, vi uma árvore sendo derrubada com a naturalidade de quem corta o cabelo. Pensei na Amazônia, essa senhora antiga que respira por todos nós, e imaginei-a com falta de ar, abanando-se com as próprias folhas – as que restaram. Há uma dignidade triste em quem sustenta parte do mundo sem receber sequer um copo dágua em troca.
Mas não sejamos injustos: o ser humano é criativo. Inventou o plástico, o concreto, o parcelamento em trinta e seis vezes e tem até a capacidade admirável de ignorar o óbvio. Se canalizasse metade dessa engenhosidade para cuidar da casa, talvez já tivéssemos aprendido a varrer sem levantar poeira.
A verdade é que tratamos o planeta como quem mora de aluguel: usamos tudo, cuidamos de pouco e, no fundo, acreditamos que alguém virá consertar depois. O detalhe inconveniente é que não há síndico no universo.
Ainda assim, há gestos. Pequenos, quase invisíveis, mas teimosos. Gente que planta árvore sem esperar sombra, que economiza água como quem guarda memória, que ensina aos filhos que o mundo não é herança, é empréstimo. São atitudes discretas, mas têm algo de revolucionário: partem do princípio de que ainda vale a pena.
No fim do dia, a Terra talvez não peça aplausos, nem discursos, nem datas comemorativas. Talvez prefira silêncio – não o silêncio da omissão, mas o da atenção. Aquele em que se escuta o vento, o rio, o estalo seco de um galho que não deveria cair.
E, se escutarmos com cuidado, talvez percebamos que a tosse diminui.
Ou, pelo menos, que já não fingimos não ouvir.
Fonte ==> Bahia Notícias
